março 26, 2004

SÊ HUMANO

Mente. Olha para o lado na desgraça alheia. Goza do infortúnio dos outros. Engana. Esbofeteia a verdade à tua conveniência. Faz-te daquilo que não és. Sê charmoso. Sê sociável. Sê hipócrita. Destila o teu veneno no teu canto de sereia. Muda os teus valores consoante as marés. Melhor, nem tenhas valores. Sê egoísta. Coça apenas o teu umbigo. Vive dele. Tem em mente apenas a tua sobrevivência. Não a de outrem. Sê simpático. Vende a banha da cobra a cada estalo de língua. Abraça. Beija. Fode. Apunhala. Sorri. Emparelha-te. Vive apaixonadamente a tua existência. Despaixonadamente a alheia. Centra o mundo em ti. Trai. Faz o que fôr necessessário para te sobrepores no fim de contas, quando importa. Mas ilude. E mente. Apregoa e faz com que digam de ti o contrário. Que és boa gente. E sobe na vida. Sê boa pessoa. Sê fixe. Dá umas esmolinhas. Sê feliz. Atropela quem se atravessar no caminho da tua felicidade. Sê prático. Não te percas com pormenores sem importância. Esfola a dignidade dos outros. Mantém as luzes em ti. Tu é que tens piada. Tu é que és o bom partido. Tu é que és! Sê objectivo. Mantém-te assim. Trilha o caminho ao sabor das tuas curvas umbilicais. Mente. Humilha. Chora como um crocodilo. Enfarda-te. Julga. Erra. Sê obcecado. Contigo. Sê humano.
Posted by Lewton at 04:38 PM | Comentários: (2)

março 24, 2004

NÃO TE AMO MAIS?

"Não te amo mais.

Estarei mentindo dizendo que

Ainda te quero como sempre quis.

Tenho certeza que

Nada foi em vão.

Sinto dentro de mim que

Tu não significas nada.

Não poderia dizer jamais que

Alimento um grande amor.

Sinto cada vez mais que

Já te esqueci!

E jamais usarei a frase

Eu te amo!

Sinto, mas tenho que dizer a verdade

É tarde demais..."*

 

* NB - Agora leiam de baixo para cima.

 

*Clarice Linspector

Posted by Lewton at 04:27 PM | Comentários: (2)

março 22, 2004

STAND-BY

“Turn off your conscience
Leave the world outside
Nothing at all can ever make you feel
That anything’s real so you just disconnect”*


- Não há paciência... – Exalou.
De facto, já não lhe restava paciência para quase nada. Estava gasto. Prematuramente saturado. Era uma perspectiva assustadora mas simultaneamente indiferente. O incolor tomava-lhe posse do mundo numa cadência repetitiva e frequente. Pensava em tudo e em nada constantemente. Mesmo enquanto falava com os outros. Mesmo enquanto ria ou anuia sorridente a algum momento mais hilariante. Construira um labirinto mental sem sentido que o flagelava inadvertidamente. Estava preso em si. Tinha consciência disso, mas optava por ignorá-lo. Deixava passar o tempo, descontroladamente. Sabia disso, sabia das consequências da sua inércia. Isso atormentava-o. O futuro, o passado, o presente. O tempo.
Mesmo naquele dia, enquanto, entretidamente entediado, percorria os canais da TV, mais pelo gozo de premir os botões do comando do que pela esperança de encontrar algo que lhe interessasse. Mas pela força das circunstâncias acabava por engolir, inconscientemente, o que desprezava em consciência.
Suspirava vagarosamente a cada lufada de ar que entrava a custo pelas suas narinas entupidas. Não se conseguia livrar daquela constipação irritante.
- Foda-se... – Atirou o comando para o sofá.
Resolveu sair de casa. Talvez fizesse algo de mais útil na rua. Tomar um café, ler o jornal, apanhar ar, tanto lhe fazia. Ainda estremunhado, abriu a porta. Um frio cortante fez-lhe questão de dar as boas vindas. Uns raios de sol, tímidos, beijavam-lhe a face. O mundo lá fora continuava o mesmo. O mesmo que dentro de casa. Nada mudava. Nada já lhe verdadeiramente surpreendia. Dirigiu-se ao quiosque ao fundo da rua. Um olhar rápido sobre os títulos dos jornais. Pegou no do costume. Apesar de saber o preço de cor, perguntou à mesma, irreflectidamente.
- São 65 cêntimos, se faz favor. – Retorquiu o homem do quiosque.
Vinha ali todos os dias. Era uma pergunta estúpida. Mas o homem nem ligou. Devia estar tão absorto como ele.
Folheava o jornal, quase desinteressadamente, com um olho no papel e o outro no passeio, tentando evitar encontrões indesejados com os transeuntes ou com as bostas de cão que ornamentavam a calçada.
Entrou no café do costume. Pediu o costume. Tudo era cumprido com precisão protocolar. E ele odiava protocolos. Estava resignado com o quotidiano. Mas isso desocupara-lhe a mente, pois num ápice dava-se imerso na leitura do jornal. As notícias não variavam muito de dia para dia, mas ele tinha tomado o gosto de dissecar as edições de ponta a ponta, lendo e relendo, sempre à procura de informação que lhe tivesse escapado. Era uma actividade algo estéril, mas servia o propósito de fazer escoar alguns quartos de hora, ali sentado no café, sem ter de pensar em mais nada.

(....)

Quando deu por si, estava embasbacado a olhar para a televisão. A chávena tava vazia e o jornal posto de lado. Estava a fitar o ecrã. Mas não estava a ver nada. Estava apenas a fitar, com um olhar vítrico, sem expressão. Ficou um pouco inquieto. Deu-se conta que estava estupidificado. Esfregou rapidamente os olhos e acendeu um cigarro. Já prometera a si mesmo que ia largar o tabaco. Mas como tantas outras ao longo da sua vida, era mais uma promessa vã.
Um riso estridente, vindo duma mesa ao fundo, despertou-lhe da sua dormência. Um grupo de monhés, em família, cantava alegremente músicas pop. Estava a ser um arraial. Soltou um esgar de sarcasmo. Achava aquilo tudo uma enorme pirosice e estupidez. E não compreendia a razão de uma alegria assim tão absurda. Aquela gente não se enxergava?
Nisto deu-lhe uma pontada no peito. “Deve ser do cigarro”, pensou. Apagou-o e pediu um copo de água. Continuava com a respiração pesada. A constipação perseguia-o desde o começo do Inverno. Involuntariamente, folheou o jornal de novo. Olhou para o relógio. Já era tarde. Mas tarde para quê? Tarde e cedo eram conceitos que se estavam a esbater progressivamente da sua vida. Via pela vitrina os carros a passar, a multidão a se atropelar sem tréguas. Fitava a rua. Encontrava-se a navegar pelas memórias difusas da sua mente. Estava em ponto-morto. Há demasiado tempo. Traçava objectivos com a facilidade com que se acende um cigarro. Deixava-os morrer com a mesma frequência que enchia o cinzeiro de beatas. Estava num beco. Ou melhor, não estava realmente num beco. Ele sabia o caminho a tomar, mas achava-o tão desinteressante, fútil e redutor como o primeiro passo a dar para percorrê-lo.
Acendeu outro cigarro. Ouvia as conversas à sua volta e bilhardava com os seus botões. Outras vezes, apenas ouvia. Achava reconfortante a posição de espectador. Sem ninguém a questioná-lo ou a esperar algo dele que não o silêncio.

(....)

Estava aborrecido. Levantou-se e foi pagar. Retornou ao abraço frio da rua. Calcorreou a zona à procura dum sítio para ir comer. O estômago era impiedoso. Podia ir ao supermercado. Até poupava uns trocos e levava comida para mais tarde. Mas ele tinha-se habituado ao imediatismo da satisfação das suas necessidades. Custava-lhe que não fosse assim. Ainda pensou em telefonar a alguém para ir jantar com ele, mas cedo deixou esse pensamento de parte. Não valia a pena.
Por fim, sentou-se à mesa dum restaurante com SportTv. “Óptimo.”, disse para si mesmo. Jantava e sempre via mais um jogo qualquer que tivesse a dar. O futebol era das poucas coisas pelo que mantinha o mesmo entusiasmo pueril que tinha no início. Pediu a ementa. Esteve às voltas com ela mais de uma dúzia de minutos até que se decidiu pelo mesmo de sempre.
- Era um bitoque, se faz favor.
- E para beber?
- Pode ser.....uma cola.
E por ali se ficou. O jogo distraia-o das demências em que, amiude, incorria por falta de afazeres, por falta de vontade, por inércia auto-imposta, por conformismo, por estupidez, por pequenez, por vontade inconsciente em que assim ficasse. Era uma encruzilhada sem sentido, desnecessária e anacrónica. Ou talvez fosse a sua sina. Se é que há sinas.
Quando deu por si, estava a voltar para casa. O telemóvel tocou. Era uma mensagem. Um convite para jantar fora. Ele soltou outro esgar de sarcasmo. Enquanto teclava freneticamente uma mensagem a declinar o jantar, pensava insistentemente que andava às avessas com o tempo. De volta ao lar, a TV continuava com o seu espetáculo deprimente de chorrilhos sensacionalistas e dramáticos. Sentou-se, conformado, a olhar tristemente para o ecrã. Era tudo tão igual. As notícias, os dias, as pessoas. Como um círc(ul)o perpétuo, previsível e maçador. Pensava que devia conhecer novas pessoas, mas cada vez mais tinha menos pachorra de fazer novos amigos, de meter conversa, de se fazer simpático e sociável. Era todo um processo que, apesar de até lhe ser conveniente, cobria-o de desmotivação. Estava quieto no seu ninho. Tinha as asas bem amarradas. Cada vez mais amarradas com o passar do tempo. Não queria vislumbrar outras opções. Decidira deixar passar o tempo.

(....)

Acordou todo torto. Tinha adormecido, contorcido em cima da cadeira e da mesa. Tinha o pescoço dorido. Já estava a antever dores de cabeça. Foi tomar umas aspirinas. Olhou para o relógio. Nem comentou para si próprio. Mais um dia tinha passado. Encolheu os ombros. Já não lhe fazia diferença. Foi para a cama. Era um acto lúcido no meio de tantos actos mentecaptos. Rezondava-se a si mesmo, mesmo sabendo que eram críticas a cair em saco roto. Mas fazia-o. Eram farrapos de consciência que lhe batiam nos botões.
- Isto não é vida...
Mas o cansaço falava mais alto. Ligou o rádio, sintonizou uma estação ao calhas e emaranhou-se nos lençóis. E desligou do mundo. E está verdadeiramente em paz, longe de tudo e todos.


*in Megadeth’s “The World Needs A Hero”, Disconnect - Music and Lyrics by D. Mustaine, 2001.

Posted by Lewton at 11:33 AM | Comentários: (2)

março 16, 2004

"TIC-TAC...TIC-TAC..."

Já não sei quem é que dizia que o tempo era relativo. Acho que era o Einstein. De facto, a objectividade para compreender uma relatividade de algo que é tão inerentemente objectivo, pelo menos neste mundo, é muito subjectiva. E é isso que é o tempo. Subjectivo. Gira à volta do sujeito ou vice-versa. Na realidade, é de crer que sem sujeito não há tempo, nem mundo, ou consciência deles. Quando não há consciência de algo, isso não existe. É filosófico, mas verdadeiro numa perspectiva estritamente humana. O tempo é abstracto. Não é simplesmente o fio que as Parcas cortavam quando decidiam que a Hora tinha chegado. O tempo é um processo. Moroso, por sinal. Mesmo quando a vida do sujeito nem chega a sê-lo. E arrasta-se, aparentemente sem fim ou destino, ditando, à laia do acaso, torrentes de sujeitos à sua sorte (boa ou má). Mas o que é o tempo? Serão as horas, os minutos, os segundos? Todas essas divisões e subdivisões instituidas pelo Homem? Será a vida de cada um? O conjunto delas todas? O girar dos planetas? A existência per se (tomando por certo que se pode tomar a existência per se)?
E o tempo é relativo. Continua-me a ecoar na cabeça. Por vezes é longo, por vezes é curto. Muitas vezes entendiante, repetitivo. Às vezes sublime e preenchedor. Mas é relativo. Não é um dado objectivo.
O tempo é, então, a vida. A vida não é objectiva. O tempo é a existência, o ser das coisas e das gentes. Das ideias que nascem ou morrem nas mentes. Do envelhecimento das células. Do circular doentio da(s) vida(s). Da repetição da humanidade. Da Natureza.
Dizem que "o tempo é dinheiro", "aproveita enquanto és novo(a)", "carpe diem", "tempus fugit", etc., numa sucessão de dizendos populares a expressões latinas, para não deixar fugir o tempo. Mas o tempo não é relativo? E infinitamente subjectivo? Então é subjectivo o modo como lido com ele, se o olho com tédio, se o engulo com sofreguidão, se o deixo passar sem trela ou se me agarro a cada minuto como se fosse o último.
É um dado objectivo a morte. É um dado objectivo envelhecermos, as coisas estragarem-se, as paisagens erodirem. Mas será isso o tempo? Ou um dos seus círculos ou subcírculos eternos e repetitivos? Ou será apenas a nossa percepção de nós mesmos? O nosso entendimento? A nossa quantificação das coisas e acontecimentos?
O tempo....será que realmente o perdemos? que o agarramos? Será objectiva a objectividade? Só existe objectividade pelo sujeito. Só existe objectividade subjectivamente.
O tempo é relativo porque só existe em nós...

Posted by Lewton at 05:21 PM | Comentários: (7)

março 12, 2004

A PAIXÃO DE MEFISTO

Condescendes à vez, nesta tua rês, tanta funesta estupidez que banhas diligentemente em falsidade, pregando a mentira com autoridade, fruindo honesto, desse discurso indigesto. De inimputável pensamento, vomitando o lamento, fazes jus ao teu julgamento de carneiro manso. E num piscar de olhos, mais um sorriso tanso, uns aplausos ocos do rebanho, os miolos no banho, a língua à estalada em arenas de fachada. O tempo é pequeno, mas tu, sereno, destilas o veneno no teu papel, em arrotos de fel, que nem um surdo emocionado a cantar o fado. Ignoras altivo, o enfado taxativo que a insistência da demora da tua cova provoca. E já não é hora? Suicidas-te diariamente, numa pirosice inconsciente, proclamando a preço de feira a tua verdade rameira. És um esgoto perfumado, um cu a céu aberto, um peido instalado, um enjôo certo. Abraças em vão, num esforço anão, quem te é crente. E nos teus braços de serpente, em toada lerda, seduzes a merda que te completa. E, qual asceta da hipocrisia, adoptas, à tua bitola, essa fedorenta empatia. Não fosses tu esse catarro tuberculoso, de pensamento leproso, esse sémen ressequido dum coito interrompido, esse asco incontinente, esse fiasco indulgente, essa medalha de latão polida até à exaustão, que não seria o meu desejo em sorte, qual beijo traiçoeiro de consorte, consumires-te no teu desnorte até o esquecimento e morte.

Posted by Lewton at 04:31 PM | Comentários: (5)

março 09, 2004

O HORROR...O HORROR...

É impossível com palavras descrever o que é necessário a quem não conhece o significado do horror. O horror...o horror tem um rosto e devemos fazer do horror um amigo. O horror e o terror moral são nossos amigos. Se não forem, então são inimigos a temer. São verdadeiros inimigos...
Lembro-me quando estava nas Forças Especiais. Parece que foi há milhares de anos. Fomos a um acampamento para vacinar umas crianças. Depois de as vacinarmos contra a poliomielite, fomos embora, e um velho veio a correr atrás de nós. Estava a chorar. Não via. Voltámos para trás. Eles tinham vindo e arrancado todos os braços vacinados. Estavam num monte...um monte de bracinhos.
Lembro-me...que chorei...chorei como uma avó qualquer. Queria arrancar os dentes. Não sabia o que fazer. Quero lembrar-me disto. Nunca quero esquecer.
Depois percebi, como se tivesse sido alvejado com um diamante, uma bala de diamante que me entrou pela testa. Pensei: "Meu Deus, aquilo foi genial!" Que génio, que vontade para fazer aquilo! Perfeito, genuíno, completo, cristalino, puro...Então, percebi que eles eram mais fortes do que eu, porque conseguiam aguentar coisas daquela natureza. Não eram monstros, eram homens, homens treinados. Estes homens que lutavam com o coração, que tinham família, que tinham filhos, que estavam cheios de amor, tinham força...a força para fazer aquilo (...)
É necessário ter homens com moral e, ao mesmo tempo, capazes de utilizar o seu instinto primordial para matar sem sentimentos, sem paixão, sem julgar. Porque é o julgamento que nos derrota.


- Coronel Walter E. Kurtz

Posted by Lewton at 06:41 PM | Comentários: (3)

março 03, 2004

O CÃO E O HOMEM

"Recolha um cão de rua, dê-lhe de comer e ele não morderá: eis a diferença fundamental entre o cão e o Homem."

- Mark Twain

Posted by Lewton at 06:19 PM | Comentários: (3)